Jornalistas sofreram mais de 14 mil ataques nas redes sociais durante o primeiro turno das eleições
Redação Amazonas em Notícias 10 de outubro de 2026 2 Comments
Jornalistas e veículos de comunicação foram alvo de 14.182 ataques nas redes sociais durante o primeiro turno das eleições de 2026 no Brasil. As ocorrências foram registradas entre 16 de agosto e 4 de outubro, nas plataformas X e Instagram, e envolveram ameaças, ofensas, tentativas de descredibilização da imprensa e manifestações de violência contra profissionais da comunicação.
Os dados fazem parte do relatório Cobrir as eleições, enfrentar a violência: uma análise dos ataques à imprensa no primeiro turno de 2026, elaborado pela Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/UFES) e o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio).
Ao longo de 50 dias de monitoramento, os pesquisadores analisaram 3,7 milhões de conteúdos digitais e acompanharam publicações relacionadas às eleições, aos jornalistas e aos veículos de comunicação. Para identificar as manifestações ofensivas, foram monitorados 652 termos e hashtags.
O levantamento contabilizou uma média de 283 ataques por dia durante o período analisado. Na reta final da campanha, entretanto, a violência digital se intensificou: na última semana antes da votação, foram registrados 4.537 ataques, o equivalente a aproximadamente 327 ocorrências diárias.
Ataques aumentaram durante a campanha eleitoral
Os dados mostram que a hostilidade contra a imprensa cresceu à medida que o primeiro turno se aproximava. Na primeira quinzena monitorada, entre 16 e 29 de agosto, foram registrados 2.630 ataques. Na segunda quinzena, o número chegou a aproximadamente 4,4 mil, um aumento de 67,3%.
Na etapa final do período analisado, as ocorrências aumentaram mais 3,1%, alcançando 4.537 registros na última semana antes da votação.
Segundo o relatório, parte das publicações buscava desqualificar o trabalho jornalístico por meio de acusações de divulgação de notícias falsas, manipulação de pesquisas eleitorais e alinhamento político. Expressões como “fake news”, “jornalista militante” e “imprensa golpista” apareceram entre os termos utilizados para atacar profissionais e organizações de comunicação.
O levantamento também identificou situações em que jornalistas foram hostilizados durante a busca por fontes para reportagens, além de veículos pressionados por causa de sua linha editorial. Em alguns casos, equipes precisaram avaliar os riscos à própria segurança antes de realizar coberturas externas.
Mulheres concentraram quase 65% dos ataques individuais
As jornalistas mulheres foram as principais vítimas entre os profissionais identificados individualmente no monitoramento. Elas concentraram 64,8% das agressões dessa categoria.
Ao todo, foram contabilizados 3.106 ataques direcionados a jornalistas específicos, dos quais 2.013 tiveram como alvo mulheres.
Além das ofensas relacionadas ao exercício da profissão, as mensagens incluíam insultos sexuais, manifestações misóginas e incentivo à violência física. O relatório aponta que esse tipo de agressão amplia os riscos enfrentados pelas profissionais e pode comprometer sua segurança dentro e fora do ambiente digital.
A violência também atingiu organizações jornalísticas, que foram alvo de acusações e tentativas de descredibilização por causa de suas publicações e da cobertura eleitoral.
Disputa presidencial esteve relacionada à maioria dos ataques identificados
A disputa pela Presidência da República esteve associada a quase 80% dos ataques cujo contexto eleitoral foi identificado pelo monitoramento.
O dado evidencia a relação entre a polarização política e a hostilidade direcionada à imprensa durante o período eleitoral. As manifestações não ficaram restritas a críticas a reportagens específicas, mas também envolveram ataques à credibilidade dos profissionais e dos veículos responsáveis pela divulgação das informações.
Para a coordenadora jurídica da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Leticia Kleim, os ataques digitais têm o objetivo de descredibilizar e intimidar o trabalho jornalístico.
Segundo a representante da entidade, as consequências ultrapassam os profissionais diretamente atingidos, pois as tentativas de silenciamento podem prejudicar o acesso da população a informações de interesse público, especialmente durante o processo eleitoral.
Coalizão reúne organizações de defesa do jornalismo
A Coalizão em Defesa do Jornalismo reúne 11 organizações ligadas à imprensa e à liberdade de expressão. Entre elas estão a Abraji, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) e a Repórteres sem Fronteiras.
O relatório foi desenvolvido com a colaboração do Labic, da Universidade Federal do Espírito Santo, responsável pelo monitoramento e pela análise dos conteúdos digitais, e do ITS Rio, que contribuiu para a avaliação da toxicidade das publicações por meio da ferramenta Perspective API, do Google.
O documento aponta que a violência digital contra jornalistas representa um desafio para a segurança dos profissionais e para a liberdade de imprensa. As ameaças, as ofensas e as tentativas de intimidar equipes de reportagem podem afetar as condições de trabalho e dificultar a cobertura de assuntos de interesse coletivo.
Leia Mais:
Laryssa Gomes Tavares Repórter policial e diretora executiva do portal Amazonas em Notícias
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